"Ainda ouvi umas piaditas de adeptos do Sporting" JORGE MAIA VALENTE
Protagonista à força, e pela positiva, no Beira-Mar-Sporting, Fernando Idalécio Martins foi alvo de múltiplas abordagens na segunda-feira seguinte aos 90' de fama e só teve sossego ao fim do dia, quando o telemóvel não resistiu às centenas de chamadas e se deixou dormir. Foi então altura de confraternizar com amigos, precisamente quando eles próprios já começavam a ficar um bocadito "invejosos" da falta de atenção de Idalécio, que, de tantas solicitações, quase não conseguia manter uma conversa até ao fim. Apesar do aparato, o dia começou como outro qualquer, pela manhã, por sinal pouco fresca, mas com a enorme diferença de ter o telemóvel inundado de mensagens de amigos, de pedidos de entrevistas de jornalistas e de saudações dos mais próximos. Era o preço da notoriedade atingida por quem aproveitou a escusa de João Ferreira - e de toda a classe de primeira categoria - para dirigir o encontro dos leões no Municipal de Aveiro, saindo do anonimato que lhe era conferido pelo estatuto de juiz da 1ª categoria distrital, grupo B.
Em Oliveira do Bairro, a recepção na empresa onde trabalha foi "muito viva e calorosa". "Foram todos impecáveis comigo. Mesmo aqueles que, na brincadeira, lá deixaram escapar uma piadazita por serem adeptos do Sporting", conta o árbitro. É o normal nestas alturas. "Sempre na brincadeira. Houve um que me disse que faltou marcar um penálti. Eu disse-lhe que tinha levado um na mala do carro, mas que me esqueci dele", recorda, no meio de grandes risadas de quem o rodeava e escutava a conversa, entre os quais o próprio sportinguista que, brincadeira à parte, lhe endereçou os parabéns "pelo belo desempenho".
O telemóvel começou a dar sinais de cansaço mais cedo do que Fernando Idalécio Martins no jogo dirigido em Aveiro, onde, tal como os seus auxiliares, nem direito teve a um período de aquecimento. Foi equipar e ir lá para dentro "cumprir um sonho" que "já não julgava ser possível alcançar". Aos 42 anos e ao fim de 19 de carreira, entende que teve a felicidade de estar no sítio certo e na hora exacta para assistir a um jogo de futebol: "Estava no estádio para assistir ao jogo, nada mais." A oportunidade "de sonho" não podia ser recusada. "Quando me iniciei na arbitragem, sonhava um dia apitar na primeira divisão, num jogo com equipas de primeiro plano, mas já não julgava que fosse possível. Com essa oportunidade na mão, foi o cumprir de um sonho, que ficará registado para sempre. Nunca mais na minha vida vou esquecer o dia 21 de Agosto de 2011", garante.
Elogios, muitos elogios, e dois dias de fama para Fernando Idalécio Martins, que não vai escrever nenhum livro, mas guardará os jornais e as notícias acerca da exibição da equipa de arbitragem que comandou. "Tanta gente a falar-me, até na rua, e a todos agradeço a simpatia. Mas já passou, hoje [ontem] é outro dia, e amanhã já ninguém se vai lembrar", sugere o juiz. Mas não será tanto assim: pelo menos os companheiros da Associação de Futebol de Aveiro não vão deixar de lembrar o momento que Idalécio rotula como "um dia diferente na carreira de árbitro".
Regresso aos pelados depois do...divertimento Fernando Idalécio Martins está no activo e prepara-se para dirigir jogos do Campeonato Distrital da AF Aveiro, que vão começar já no próximo mês. Vem aí a rotina semanal de pisar alguns pelados. "Eu dizia, e agora tive oportunidade de comprovar: é mais fácil apitar na I Divisão", referiu o juiz de Oliveira do Bairro, que foi acompanhado no dia de sonho por Carlos Teles, coordenador técnico da AF Aveiro. O próprio, em conversa com os jornalistas no final do encontro, mostrou-se satisfeito com o desempenho do árbitro: "Encarou o jogo com divertimento e sem pressão. Fez um belo trabalho. Esta é uma óptima oportunidade para se olhar para os árbitros dos escalões mais baixos e ver que também há qualidade." Fernando Idalécio Martins também é dessa opinião. E ganha mais um motivo de orgulho: foi por o seu trabalho e competência terem sido elogiados que a arbitragem distrital saiu a ganhar.
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