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Uma leoa com queda para a aventura

Aos 86 anos, a sócia n.º 6 do Sporting e filha de um dos fundadores do clube acha natural o desafio da prima Marta para saltar de pára-quedas, mas o médico diz que “é louca!” e mandou-a fazer exames.
“O Salvador Marques, que é meu médico e meu amigo de infância, virou-se para mim e disse: ‘Tu és completamente louca! Vais agora saltar de pára-quedas. Vais é fazer exames. Tu não vais saltar, ainda morres no ar.’ ” Foi assim que a conversa do DN com Maria Lourdes Borges de Castro, 86 anos, sócia n.º 6 do Sporting e filha de um dos fundadores do clube, começou…
Há uns tempos, foi a Alvalade para uma reunião do Conselho Leonino e não cabia em si de contente. Não resistiu. Teve de partilhar com os conselheiros que tinha sido convidada a saltar de pára-quedas. Foi ovacionada pela ousadia. Mas a adrenalina esbarrou na frieza do médico e sócio n.º 1 do clube, Salvador Marques.
“Olhe, estou a ver que tenho de desistir da ideia de saltar de pára-quedas. Os médicos estão todos contra mim. Quando a minha prima [Marta Black] me convidou, eu pensei que fosse a coisa mais natural da vida! Disse logo que ia. Eu não tenho medo de saltar, estou é com medo do resultado de um dos exames, que me pode impedir de saltar, parece que tenho a pressão um pouco alta”, contou, indignada com a tal pressão, que ameaça um salto para a história.
Viveu tempo suficiente para ver partir a mãe [ Maria Antónia], o pai [Humberto] e a neta [Sandra Sofia], “o maior desgosto, até hoje”, confessou. Talvez por isso a morte não a assusta. “Já vivi tanta coisa. Tive uma vida preenchida, desgostos… A minha mãe morreu no dia em que fiz 49 anos e só tinha mais 16 anos que eu, era uma amiga.”
Aos 86 anos, o dia começa “tardíssimo”, sempre depois das 11.00, também nunca se deita “antes das 03.00 da manhã”. Faz uns movimentos de ginástica – “por isso é que com esta idade ainda tenho esta genica toda”, disse. Toma um duche e arranja-se rapidamente, pois foi habituada a não se ver muito ao espelho – “e ainda bem, assim não dei pelas rugas que se iam vincando”.
Depois veste-se, porque a mãe dizia que era horrível ver uma mulher de pijama em casa, e desce para a primeira refeição do dia. “Parece mal, mas o meu pequeno-almoço é um café e um cigarro [risos], depois vou para o computador, tenho 60 e tal e-mails para abrir, e depois ou me vão buscar para um almoço, um chá, um jantar… é assim a minha agenda. De resto não faço nada, sou uma mandriona!”
Há dias (ou noites) em que nem dá pelo passar das horas. Por vezes fica no Skype “a falar com um amigo, o Nuno Mourão”, até que ele diz que é tarde e que tem de ir dormir. “Então eu pergunto, mas que horas são? São quase 04.00 da manhã, diz ele. Bom, então eu também tenho de ir dormir.”
Sem vergonha, confessa alegremente que tem dois “bons” vícios, o cigarro e a Internet: “Agora fumo menos por causa da Internet. Passei de 30 cigarros para oito ou nove por dia… Quer dizer, quando vou ao futebol, fumo mais uns quantos, é o nervoso miudinho.”
E como é Maria Lourdes Borges de Castro na primeira pessoa? “Sou uma senhora, como vê, pequenina – cheguei a medir 1, 58 metros, mas agora já só meço 1, 52 -, que calça o 33 e tem muita dificuldade em arranjar calçado, com 86 anos, mas com uma energia fantástica e um amor grande ao Sporting”, clube que o pai ajudou a fundar. “É um amor, sem dúvida. Isto é uma família.
Tenho uma coisa óptima, que é ter muito bom feitio, muito bom humor, estou sempre bem-disposta e isso faz amigos. Eu tenho aqui [Alvalade] amigos espantosos, ninguém está sempre bem na vida, eu também tenho maus momentos, tristes, fiquei sem a minha neta, a única neta, filha do meu único filho, Humberto [nome do pai dela]“, recordou de olhar triste, para depois fazer da amizade o guia de uma longa vida. Para ela, “não há nada como a amizade, foi uma ajuda muito grande, prezo muito a amizade, não olho ao clube. É é amigo, é amigo.”
É assim com o presidente do FC Porto. “Outro dia, uma das funcionárias do Sporting chegou ao pé de mim e disse-me que o senhor Pinto da Costa andava à minha procura. Como ele e eu vamos para o camarote presidencial, encontrámo-nos lá. Ele teve a gentileza de me trazer um guarda-jóias do FC Porto.
É pessoa que eu estimo e que me estima”, começou por contar, para depois recordar o dia em que fez 85 anos de sócia. “O Sporting fez uma festa-surpresa no intervalo do Sporting-FC Porto (que nós ganhámos por 2-0) e ao intervalo apareceu uma funcionária e pediu-me para não sair dali porque podia haver confusão e disse que havia um senhor que queria falar comigo.
O senhor era o presidente Soares Franco, com aquele tamanho todo, que me pegou na mão, como quem leva a menina à escola, até uma sala onde tinha um bolo, champanhe e flores. Cantaram-me os parabéns… e o senhor Pinto da Costa pediu licença e foi dar-me um beijo. São coisas que não esqueço, foi de uma grande amabilidade.”
Ir a Alvalade é um ritual que repete a cada jogo do Sporting em casa. É como lavar a alma. Alegre fica “sempre”, porque está “sempre com amigos”. Para Maria Lourdes, ir a um jogo a Alvalade ou ir ao café tomar um chá com amigos é quase a mesma coisa.
Os jogadores do Sporting vão mudando de camisola, mas não deixam de ser os seus meninos. E a troca de sms (mensagens) é algo natural. O guarda-redes Ricardo “telefona sempre a desejar bom Natal”, contou, recordando o autógrafo de João Pinto, com “um beijinho”. A camisola do centenário, que não lava para não os apagar, está crivada deles.
Voltando à adolescência, e sempre com o pai presente, lembrou o dia em que a avó paterna perguntou ao pai: “‘Para que colégio vai a menina?’ E ele respondeu: ‘A menina vai para o liceu.’ A minha avó, escandalizada, disse: ‘Mas o liceu é para onde vai toda a gente…’ E o meu pai respondeu: ‘Por isso mesmo, ela não é mais do que eles.’” Foi educada assim e agradece por isso. Nasceu prematura, aos sete meses, no dia 21 de Janeiro de 1923.
“O meu pai gostava de caçar na serra de Montejunto e a minha mãe gostava de ir com ele, mas primeiro foi ao médico para ver se podia ir com ele e ele disse que podia, ainda faltavam dois meses… A minha mãe chega lá à serra e começa a ter dores de barriga e a ir à casa de banho constantemente e a dona da pensão disse: ‘Olhe que a menina vai ter a criança!’” E teve.
Como não tinham nada para lhe vestir, a senhora da casa onde ficaram, que era padeira, aqueceu “uns trapos” para a embrulhar.
“E o meu pai foi a Lisboa para levar o meu enxoval e me fazer sócia do Sporting! Por isso é que tenho tantos anos de vida como de sócia”, recordou.
Pai Humberto, mais jovem fundador do Sporting
O pai de Maria Lourdes, Humberto Borges de Castro, era o mais novo dos sócios fundadores do Sporting. Tinha apenas 12 anos quando em 1096 se juntou a uns amigos como José Alvalade, Francisco Stromp, José Roquette, para fundar o Sporting Clube de Portugal. Foi ainda presidente do Conselho Fiscal e 16 anos presidente dos Cinquentenários.
“Não sinto peso de ser filha de um dos fundadores do clube, mas é sempre agradável. Como nunca fui vaidosa, sou uma pessoa simples, fui educada assim, não ando a vangloriar-me disso.” O pai é recordado com carinho: “Ele gostava muito de desporto e por isso aos cinco anos deu-me uns patins, pôs-me a patinar, depois uma bicicleta, depois acabei a jogar voleibol no clube, fui capitã da equipa de natação e tenho todos os galardões do clube, hoje já sou uma relíquia do Sporting.
” A adolescência foi muito moderna para a época. “O meu pai deixava-me sair com os amigos sem o arame farpado [nome dado ao acompanhante que controlava]“.
Fonte: DN
sportingapoio
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FUZILEIRO UMA VEZ, FUZILEIRO PARA SEMPRE... !!!
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