Perdoar o "ko" e ter de ganhar aos pontos JOÃO ARAÚJO
Quando, aos três minutos de jogo, Van Wolfswinkel colocava o Sporting a ganhar por 2-0, em casa do último classificado da Liga, poucos apostariam nuns 87 minutos seguintes diferentes de um Rio Ave a tentar remar contra um domínio leonino e a arriscar-se a ver os números da derrota irem aumentando até ganharem contornos de escândalo. Em dois lances apenas, logo aos dois e aos três minutos de jogo, a equipa de Domingos tinha deixado os vila-condenses mais do que contra as cordas - dava a sensação de que o "knock-out" tinha sido perdoado apenas para prolongar o sofrimento do já moribundo adversário, fazendo em simultâneo um exercício de automotivação. A melhor metáfora para ilustrar a atitude com que o Sporting entrou em campo é mesmo a de um felino que, depois de ter a presa nas suas garras, se entretém a jogar com ela de um lado para o outro, à espera do desfecho fatal... E as fatalidades foram mesmo avolumando-se para a equipa de Carlos Brito que, pouco depois (aos seis minutos), além de estar a perder por 2-0 ficava ainda sem a referência atacante da equipa, João Tomás, atingido involuntariamente por Onyewu no nariz. Eram demasiadas contrariedades em tão pouco tempo de jogo! Christiano Atsu, jovem ganês cedido pelo FC Porto, substituiu o azarado Tomás, certamente ainda longe de imaginar como isso influenciaria o muito que ainda se seguiria neste enredo, cedendo o centro do ataque a Yazalde e ocupando a sua vaga na faixa esquerda do ataque.
Praticamente com a mesma equipa que venceu em Zurique de início, entrando apenas Elias (impedido de jogar na Liga Europa) para o lugar de Pereirinha, o Sporting apresentou um 4-3-3 assente no bom entendimento entre o médio brasileiro e Carrillo, na direita, mas sobretudo na tracção dianteira que Capel confere à equipa. O espanhol, pela esquerda, aproveitava as debilidades defensivas de Sony e a falta de ajuda de Kelvin. A estreia do lateral-direito haitiano na equipa de Carlos Brito foi uma das duas alterações do técnico. E se essa não será certamente recordada pelos melhores motivos, o regresso de Vítor Gomes ao comando das operações (saltou Jorginho) foi uma das razões para o Rio Ave nunca se ter dado por vencido. Aos poucos, os donos da casa foram sacudindo a pressão e repartindo o domínio da bola e os lances de perigo perto da baliza contrária, qual lutador que, num assomo de orgulho, vai buscar forças onde se julga já não existirem.
Ao intervalo, algo deve ter dito de motivador Carlos Brito aos seus lutadores, pois no regresso dos balneários, estes mostraram fé na reviravolta e passaram essa sensação para as bancadas. Não tão rapidamente como no primeiro tempo mas com um efeito semelhante, o cenário invertia-se e de dominador, o Sporting via tudo voltar à casa de partida. Yazalde e Christian Atsu construíram um para o outro os golos do empate, que o equilíbrio dentro das quatro linhas já justificava.
Ao leão, depois de ter levado o adversário ao tapete, nada mais restava a não ser vestir o fato-macaco e levar a decisão para os pontos. A entrada de Pereirinha devolveu-lhe peso no ataque e foi num lance iniciado na direita que nasceu o golo da vitória. Por ironia, marcado por um jogador que já não deveria estar em campo, Onyewu, a castigar o enésimo erro de Sony, expulso instantes depois.
O Sporting aproximou-se de FC Porto e Benfica como desejava Domingos, somando a terceira vitória consecutiva (melhor série da época) e fora de casa, após Paços e Zurique, mas não ganhou para o susto.
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