O mestre e o aprendiz ANDRÉ VIANA
FILIPE ALEXANDRE DIAS
Quando o treinador dos juniores, José Lima, lhe disse que Paulo Bento o queria a trabalhar com a equipa principal, André Martins ainda via o então capitão do Sporting como um ídolo distante, efémero nos ocasionais cruzamentos pelos corredores da Academia, mas eternizado em pósteres que faziam o miúdo de Argoncilhe sonhar. Moutinho mudou de camisola e de número, conseguindo no FC Porto os títulos que há anos procurava e o número 8 que Pedro Barbosa lhe tinha tapado em Alvalade. A André Martins, porém, nem o salto três vezes adiado para o plantel principal dos leões lhe anulou a vontade de herdar o 28 que a sua referência em tempos vestira.
Hoje, finalmente, mestre e aprendiz encontram-se num jogo de futebol, mas não no lado da barricada que Paulo Bento parecia imaginar há mais de três anos. "O João via o seu próprio percurso nos passos que o André dava e o André sempre teve no João um exemplo", afirma, sem hesitar, Carlos Pereira, antigo adjunto do agora selecionador nacional. "O André assumiu a referência e imitou-o, aprendeu com ele, aproveitou cada treino para absorver algo do João porque é inegável que as suas características se confundem", insiste.
A camisola é a mesma, a postura clonada, a cabeça erguida para disfarçar os centímetros a menos. "As comparações são óbvias e inevitáveis, pela maneira de jogar e pela tranquilidade que transpiram e que não se adivinha se os julgarmos pela altura. Mesmo assim, acho que o André está a afirmar-se por si só", ressalva Wilson Eduardo, companheiro na formação do Sporting.
"Antes de começar o jogo, vemos o número 28 e reparamos na semelhança física. O percurso até à primeira equipa é idêntico e ambos fazem do passe a essência do seu jogo. O João porém, é um produto acabado, chegou a um estatuto que o talento do André lhe pode garantir, mas que não ainda não tem nesta fase", avalia Tonel, que coincidiu com ambos nesses treinos de 2009. "Uma ténue diferença está no que fazem com bola e com a capacidade de passe. O João é mais de pautar o jogo, o André faz-se notar sobretudo na velocidade que dá à transição ofensiva", alerta o central do Dínamo Zagreb.
Introvertido e respeitador são adjetivos que casam com André Martins e que ouvimos de várias bocas. "Nós, equipa técnica, pedimos ao João que, como exemplo, apoiasse os mais novos. Ele fê-lo com o André, mas lembro-me bem desta história que vou contar: vi vários treinos e jogos do André pelos juniores quando já era habitual que trabalhasse connosco e ele nunca aparecia de peito feito e sobranceiro", recupera Carlos Pereira. Em campo, contudo, convém-lhe disfarçar essa deferência para que não entre em campo derrotado pelas hierarquias do passado e por esse antigo leão com quem, em tempos, sonhou dominar o campo.
Martins pediu para ter o 28 O médio que fez de Elias na Liga Europa esteve muito perto de juntar mais uma coincidência de percurso com João Moutinho: chegar a uma final no primeiro ano na equipa principal dos leões. A clonagem perfeita foi negada por Llorente e pelo Athletic, já muitos meses depois de André Martins ter garantido o número 28 que estava livre desde que Moutinho tinha assinado pelo FC Porto em julho de 2010. A camisola adensou a tendência para as comparações, por muito que os números individuais dos dois jogadores na época de estreia pelo Sporting sejam distintos. Moutinho fez 12 jogos a titular em 2004/05 para o campeonato, mesmo considerando que só se estreou a meio da época. Já André Martins, vistoso na Europa, ainda só foi três vezes titular na Liga.
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