Matías vai para 6 anos sem pararRUI MIGUEL GOMES
O futebol não dá descanso a Matías Fernández. Há cinco anos e meio que o internacional chileno não tem um período de férias superior a quinze dias - aliás, só uma vez (em Janeiro de 2006) viu esse espaço temporal ser-lhe concedido pelos compromissos da bola para gozar de algum descanso junto dos seus. A Copa América, tal como este ano, foi a primeira machadada no descanso desejado no defeso de 2006 e agora, em 2011, volta a condicionar a entrada de Matigol na temporada de estreia de Domingos Paciência como técnico do Sporting. E como faz falta a Matías Fernández efectuar uma pré-época do princípio ao fim, como atestou Cristián Uribe, médio chileno que representou o Benfica na viragem do século, proveniente do Colo Colo, de onde também Matías Fernández saltou para a Europa, rumo aos espanhóis do Villarreal.
Uribe deu a O JOGO a versão de quem, ainda sendo jogador - mas actualmente sem clube -, segue e vibra com os desempenhos do compatriota pelo Chile, que também brilhou pelo seu Colo Colo. "A melhor época foi a de 2007, quando se transferiu para Espanha: aí fez uma grande pré-temporada, não faltou a um treino e apresentou-se em grande nível", recordou, anotando: "É complicado para um jogador ter apenas dez dias de descanso, depois são as viagens e os estágios. Tudo isso cansa. Matías Fernández é um jogador com muita técnica, mas se estiver bem fisicamente, recupera também muitas bolas. Se treinar bem, será um caso sério. Esperemos que faça uma boa Copa América e chegue bem ao Sporting!"
O cansaço apontado por Uribe, que pelo sexto ano consecutivo não tem um Verão a sério, é explicado a O JOGO por Jorge Castelo, especialista em metodologia do treino desportivo, e Alberto Carvalho, especialista em alto rendimento, que recordam serem múltiplos os factores que podem resultar em sobretreino de um atleta, o que se traduz num decréscimo de "performance". O cansaço advém das muitas viagens, da constante pressão competitiva, da ausência de descanso, reflectindo-se, como refere Jorge Castelo, na fadiga táctica, estratégica, física, moral ou cerebral.
El Crá não repousa um mês seguido desde que é "europeu"Foi em Janeiro de 2006, quando ainda era jogador do Colo Colo, que Matías Fernández gozou pela última vez um período regular de férias. Entretanto transferiu-se para os espanhóis do Villarreal, antes de rumar a Alvalade, e assumiu protagonismo pela selecção chilena. Entre compromissos dos clubes, lesões e o brilhantismo conquistado pela Roja, nunca mais El Crá teve direito a parar mais de quinze dias. O ano passado foi o Mundial, este a Copa América. Mas o historial é bem mais vasto: O JOGO dá-o a conhecer...
A avaliação dos especialistas
Jorge Castelo
"As férias devem ser bem gozadas...""Se as férias forem de quinze dias e bem gozadas, podem ser suficientes, mas depende sempre dos casos e do que se entende por férias bem gozadas. Se houver recato, se o jogador se deitar cedo... As diferenças de horários é que são sempre muito difíceis de ultrapassar. As viagens criam um mal-estar e um cansaço do ponto de vista moral. Há depois muitas fadigas - a táctica, estratégica, física ou cerebral. Para um jogador de alto nível, é sempre mais difícil de desligar. Claro que quem estiver à volta do jogador terá sempre de monitorizar isso, apesar de ser sempre muito difícil. É normal que haja dias em que o treinador não possa puxar muito pelo jogador, pois este está cansado. Depois, claro, há momentos em que o jogador desliga. Alguns até o fazem durante o jogo. Cada vez mais, a pressão sobre os jogadores é enorme, e seguida, durante nove/dez anos. Há sempre uma relação emocional, moral, psicológica com o cansaço."
Alberto Carvalho
"Sem descanso, pode entrar em sobretreino""Se os jogadores entrarem na pré-época e não tiverem descanso físico, mental, dos colegas e da competição, podem entrar num estado de sobretreino. Isso pode reflectir-se em sintomas como as insónias, mais estados de irritação, diminuição do peso, o que pode levar a alguns problemas de saúde. Quanto melhor for a condição física, menor é a probabilidade do sobretreino. O controlo excessivo sobre os jogadores pode também afectar. É difícil dizer qual o tempo de férias ideal. Um mês pode ser excessivo. Nos dias que correm, além do preparador-físico, ganha cada vez mais força a presença de recuperadores-físicos nas equipas técnicas. Com o avolumar de compromissos, com três ou quatro dias para recuperar, é fundamental que os jogadores mantenham os índices físicos alcançados e elevados na pré-época. A condição física passa a ser mais de manutenção. A fadiga pode ser aguda, pelo treino, ou crónica, pela acumulação de cansaço."
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